
Na sombra de um prédio um mendigo prepara cuidadosamente a sua cama de trapos contorcidos, irónicamente estendidos em frente à montra do consumismo dourado que enfeita os mais presunçosos pescoços. Os abutres emergem de seus ninhos e continuam na sua busca sedenta de carne fresca, demasiado ocupados e zonzos com o seu festim espumoso e fresco para reparar nas rugas da repousante cabeça, que contrasta com o tecido castanho da dura almofada. Alguns reparam mas é má carne. Fulminam-o com as suas órbitras perpetuantes e retomam o trilho, apanham de novo o cheiro dos musculos e tendões a serem rasgados no crepúsculo veranal, ouvem o esguicho do sangue quente caindo a kilómetros, os filhos-da-mãe.
As cordas viajam pelo esquecimento encerado, por ora peludo, que enfeita os esquecidos pendricalhos pendurados no gracejante crânio. Ele vai pela negra coluna viajada e suja, cansada e velha, em que raras são as vezes que vê o metal a cair na tigela para à noite ser engolido pelo dono apaixonado. Quando atrai relanceados olhares o mundo é dela, e ganha novo ânimo para traduzir a alma do homem que toca o morno violino a seu lado em palavras perceptíveis aos pobres estrangeiros da melodia. Coitados, queriam eles ser filhos das claves e irmãos dos contra-tempos, queriam eles serem os melhores amigos do Dó, os namorados da Mi, e os enamorados do Si que gosta de viajar entre as duas equipas. Queriam eles ter altifalantes nos dedos, queriam eles tocar a pele pela fala muda na boca mas gritante na derme, queriam eles falar como quem beija, tocar como quem penetra as barreiras do prazer. Mas a pequenita coluna só toca bem para alguns, e leva a todos. Pena que a inveja toque a todos e só (não)leve a alguns.
Para quê as palas? Para quê?

Fotografias por Cyril Berthault Jacquier
5 comentários:
Este teu texto fez-me lembrar as ruas de Lisboa. São assim mesmo esses mendigos que retratas.
Aacabamos por todos por ser vitimas da inveja, de uma forma ou de outra.
Btw, escreves espantosamente bem! :O Essas descrições extremamente metafóricas, ui, é dom, só pode.
Aliás, *Acabamos todos (...)
Zuzuuu ^^
E leio, volto a ler, releio, e fico de olhos colados ao ecrã. Irremediavelmente, estas tuas palavras segregaram-me a atenção.
Que posso dizer mais?
Ide ao meu blog. Foste contemplada com um premiozito. =)
Agradeço muito o facto de teres linkado o meu blogue neste teu espaço. Ainda não tive tempo de o ler, mas fica aqui a promessa que um dia o farei.
Abraço.
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